domingo, 1 de fevereiro de 2015

O que é gordofobia?




Muitas questões, atualmente, são discutidas no feminismo: racismo, lesbofobia, machismo... todas essas opressões existem e têm representatividade material na sociedade em que vivemos. Contudo, o debate sobre gordofobia continua escasso - e quando existe, é permeado de preconceitos e "lugares comuns". É comum ouvirmos que pessoas gordas não são saudáveis ou que ser uma pessoa gorda é algo intimamente ligado à ingestão de comidas gordurosas e fast foods. Sintetizando: quando ouvimos falar de pessoas gordas, automaticamente associamos à falta de saúde e ao desleixo. Pessoas gordas e, principalmente, mulheres gordas, sofrem enorme pressão para se adequarem a um padrão de magreza que é, muitas vezes, inalcançável, seja por motivos hormonais/endócrinos ou por pura e simples falta de vontade. Sim, falta de vontade! Há pessoas gordas felizes com seus corpos. Nem todas elas querem passar por cirurgias e dietas malucas. Na verdade, a grande maioria de nós só quer viver em paz e ter o direito de existir, exercendo nossa cidadania normalmente.

Historicamente falando, o padrão magro nem sempre foi o dominante. Podemos analisar, por exemplo, a Idade Média ou mais especificamente o feudalismo europeu, no qual as mulheres magras eram as camponesas e as mulheres "curvilíneas" eram parte da nobreza. Isso acontecia porque as camponesas acabavam tendo que doar boa parte de suas plantações para os nobres e praticamente não tinham o que comer. Portanto, a magreza era automaticamente associada à falta de "dinheiro" (na época não havia moeda) e à pobreza. Por causa desse fato, ser uma mulher "gordinha" significava fazer parte da nobreza feudal e, por consequência, esse padrão acabava por tornar-se dominante. As camponesas eram ridicularizadas por sua magreza e as nobres eram exaltadas por suas "curvas". Essa pequena perspectiva histórico-social nos mostra que os padrões de beleza estão diretamente ligados à infraestrutura, ou seja, ao modo de produção. Com a transição do feudalismo para o capitalismo, esse padrão feudal é mantido até que o capitalismo se consolide e passe a dominar todas as esferas da sociedade.

De acordo com os meus estudos sobre o assunto, a partir de meados de 1960/70 o padrão magro começa a tornar-se dominante, principalmente com brusca mudança na produção de alimentos e com o advento das grandes indústrias de moda. No Brasil, é possível observar que a maior parte dos alimentos "gordurosos", cheios de açúcar e sódio, sempre foram mais baratos e de fácil acesso. É difícil manter uma dieta que vise o emagrecimento quando você faz parte da classe trabalhadora e não tem tempo para ficar escolhendo a dedo os produtos diets, lights ou de qualquer variação desse tipo - principalmente sendo mulher e fazendo jornada dupla/tripla. Ser mulher e enquadrar-se nesses padrões é tenebrosamente difícil devido à rotina que a sociedade joga em nossas costas: "Cuide dos filhos, cuide do marido, cuide da casa, cuide do jardim, cuide de todos, cuide do seu corpo, cuide, cuide cuide, não coma, não durma, emagreça, seja sensual, mantenha-se "em forma"". Toda essa situação tem influências do patriarcado capitalista, já que os alimentos da classe dominante são refinados, lights, diets, 0% de gorduras trans, com carne de gansos do Alabama ou caviar de peixes do mar mediterrâneo... é, obviamente, mais fácil ser uma pessoa rica ou de classe média alta e manter-se magra. Mas não basta. A questão de classe, no que tange gordofobia, não basta.

Há muitas pessoas gordas que não são gordas pelo tipo de alimento que ingerem, mas sim pelo seu organismo. Metabolismo lento e algumas diferenciações hormonais afetam na perda e no ganho de peso, podendo modificar a forma como as mudanças no corpo acontecem. Por exemplo, tenho amigas gordas que são veganas, ingerem somente frutas, legumes, verduras e derivados da soja - alimentos que são relativamente mais caros do que a carne enlatada comum ou a feijoada. A questão de classe, de fato, está ligada à gordofobia, mas não a compõe totalmente, já que pessoas gordas são diferentes entre si e formam um grupo heterogêneo com diferenciações e especificidades. 


A presidenta Dilma é o melhor exemplo que posso dar de mulher gorda, rica, com grande poder político e aquisitivo, mas que continua sendo vítima de gordofobia. Ela é uma senhora de 67 anos e foi chamada de "butijão de gás" pela roupa que vestiu durante sua posse, no início de janeiro. Esses ataques à Dilma são recorrentes: ao invés de criticar seu governo ou, quem sabe, seu partido, as pessoas (magras) decidem criticar o seu tipo corporal. De acordo com alguns jornais, ela fez uma dieta e perdeu 5kg para sua posse. Dilma, cedendo às pressões da sociedade, perdeu 5kg em uma dieta que provavelmente a privou de boa parte dos alimentos que lhe davam prazer para se encaixar nesse padrão e não sofrer tanto com os ataques ao seu corpo. Resultado? Sofreu tanto quanto antes ou até mais. Quando foi divulgada a dieta utilizada, as pessoas (magras) continuaram zombando do corpo de Dilma, como se uma senhora de 67 anos tivesse a obrigação de manter-se magra, sacrificando sua saúde para isso. Para elas, não importa que isso vá afetar Dilma física ou emocionalmente - o importante é ela estar "agradável" aos olhos preconceituosos de quem a julga. Ser uma economista e líder de uma das maiores nação do mundo, 6ª maior economia, nunca a privou de sofrer preconceito, e nunca privará - não enquanto o machismo e a gordofobia existirem.

O que torna a gordofobia uma opressão estrutural? O fato de pessoas gordas serem inferiorizadas por nada mais, nada menos que seu peso, ou melhor, por sua leitura social. A partir do momento em que a sociedade te lê como uma pessoa gorda, seja "gordinha" (eufemismo extremamente ofensivo, por sinal) ou "obesa", você passa a sofrer gordofobia. Obviamente, ela se manifesta em níveis diferentes: pessoas consideradas obesas não têm acesso a determinados espaços (exemplo: banco do ônibus; cadeiras da escola/faculdade; cadeiras dos restaurantes num geral; etc.) ou passam enormes dificuldades para acessá-los. A humilhação diária de passar pela catraca do ônibus e sentir os olhares fuzilando seu corpo por simplesmente tentar viver, trabalhar e estudar é extremamente dolorosa. A vergonha de se alimentar em público sabendo que sempre haverá um homem para te abordar sem sua permissão só para te chamar de "baleia". O medo de ser espancada, já que as ameaças, muitas vezes, são constantes - inclusive, tenho uma conhecida que já foi espancada por ser gorda. Ela perdeu dois dentes. Por ser gorda. Por ousar existir sendo gorda, se aceitar sendo gorda, usar a roupa que lhe faz sentir melhor sendo gorda. É chocante ter que escrever sobre uma mulher que apanhou por ser gorda, mas é necessário; o preconceito contra pessoas gordas já chegou em níveis alarmantes. Precisamos tratá-lo com a gravidade merecida, mas não é o que enxergo nos espaços de esquerda/feministas. É facílimo lavar as próprias mãos e dizer que ninguém é obrigado a achar pessoas gordas bonitas, ou dizer que o seu gosto é puramente pessoal e individual, sem influência alguma de preconceitos enraizados. Você pode achar que não tem responsabilidade, mas sim, tem. A solidão das mulheres gordas, que as coloca em depressão e tentativas de suicídio, está nas suas mãos também. Está nas mãos de quem se nega a desconstruir a gordofobia interna por simples capricho; está nas mãos de quem vê uma pessoa gorda sendo humilhada e assiste, como se fosse um teatro; está nas mãos de quem pratica violências simbólicas contra pessoas gordas; está, enfim, nas mãos de quem se recusa a refletir sobre seus privilégos magros e sobre a gordofobia estrutural.

Ouçam nossos relatos, participem dos debates sobre desconstrução da visão gordofóbica. Falem conosco sobre isso. Não fomentem os discursos de ódio direcionados a nós. Você, homem cisgênero branco e magro que se nega a repensar seu ódio a corpos gordos, também é responsável por tudo o que iremos passar ao longo de nossas vidas como pessoas gordas. O seu ódio/nojo aos nossos corpos é o ódio de toda uma sociedade contra nós. Responsabilize-se. E você, mulher magra, também pense nos seus privilégios. Reflita sobre o que falei aqui; será mesmo que você nunca foi gordofóbica? Nunca teve pensamentos gordofóbicos? Nunca teve medo de ficar gorda? Será? Afinal, o que é gordofobia para você(s)?



Por Nathália Lausch